A CARAVANA PASSA
Antônio Orfeu Braúna
27/01/2011 (www.orfeubrauna.com.br)
Não vou tomar o tempo nem abusar da generosidade dos colegas de jornais. Ah, comecei a vida pública como jornalista e sei que eles enfrentam obstáculos tantas vezes intransponíveis. Os obstáculos, nos tempos da ditadura, chamavam-se óbices. E óbice, na tal época, tinha sonoridade mais condizente com a moda do controle e do sigilo que imperavam. E atemorizavam. Era a prática e o costume. O pior é que a coisa continua ainda hoje, por conta dos que estão no poder. Aí os fins justificam os meios. Mas, existe sempre o perigo da reação, “duela a quem duela”, como já disse Fernando Collor. Peguemos uma fração do momento. O professor Anastasia - qualificado e excelente técnico, elevado ao cargo de governador - muniu-se de amplos poderes, com a complacência do Legislativo. E arregimentou pessoas da maior competência para fazer reformas, reduzir despesas e incentivar a produtividade e a eficiência dos serviços públicos. De cara já avisou que não reajustaria o salário dos servidores. Mas, em compensação, enxugaria a máquina administrativa demitindo aqueles que ocupavam cargo de confiança. Ninguém poderá duvidar que ele deixe de cumprir a primeira parte do plano. Todavia, ainda não se passou um mês de sua posse e o senhor governador já criou 1.314 cargos comissionados, que nada mais são do que cargos de confiança. Um terço desse número será destinado ao sistema prisional do Estado, que contará com mais 144 presídios (CERESPs e penitenciárias) até 2014. Imagine só! Segundo a secretária Renata Vilhena, o objetivo da Lei Delegada “é aproximar mais o governo do cidadão”. Grande parte dos cargos criados irá para o fortalecimento das estruturas regionais do Sistema Único de Saúde. Menos mal. Só que sobre servidores comuns, nem menção existe (jornal O Tempo, 25/01/2011). Aqui, mais do que nunca, cabe muito bem o nosso indefectível uai. Afinal, onde é que o governador vai se aproximar dos cidadãos? Lógico que não será nas cadeias. Afinal é homem probo e comprometido com o direito e a justiça. Nem será em algum posto de saúde do interior. Mesmo com os cabelos grisalhos (?), que lhe caíram tão bem, é um jovem cheio de saúde. Só que esqueceu a guerra sobre as aposentadorias vitalícias e hereditárias dos ex-ocupantes (até eventuais) de seu cargo. E, no mesmo dia, transmitiu o governo ao seu vice, para viajar uns dias pelo exterior. Lá vem mais um para nossa folha de pagamento. Há bem pouco tempo, em uma nota no mesmo jornal O Tempo, falei sobre uma falta de habilidade política do professor Anastasia, com quem já me sentei ao lado em um dos bancos da Faculdade de Direito da UFMG nos tempos da pós-graduação. Era uma observação do ex-colega, tipo um grito da geral no Mineirão, para alertar. Só que Sua Excelência, na dita Lei Delegada, deve ter optado pelo ditado árabe citado por saudoso colunista social – “Os cães ladram e a caravana passa”. E parece acreditar que cão que ladra não morde. Ouso dizer que nessas coisas do poder e da política o melhor é a sabedoria matuta – “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.
