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SPC DO CRIME

Antônio Orfeu Braúna

14/02/2009 (Jornal O TEMPO)

O desejado por todos nós para que os crimes não ocorressem é que existisse um policial ou segurança privada ao lado de cada habitante. No mínimo em pequenas áreas ou quarteirões, como faziam os guardas noturnos e a Guarda Civil, que não mais existem. Isso, hoje, é inteiramente impossível porque o Estado - no que implica cada cidadão - não tem condições de manter, materialmente, tal efetivo. Além do mais, muitas vezes, "o inimigo mora ao lado", como no título de velho filme. Aí vamos nós remando contra a correnteza, porque navegar é preciso. Assim, é preciso ter consciência de que nossa segurança não pode depender da presença física de alguém, seja policial ou particular. Mas há de existir, sempre e em todos, aquela sensação de segurança, que só se obtém em razão das decididas e constantes ações do aparelho policial inibindo a marginalidade de qualquer tipo.

 

A índole dos criminosos contumazes e até dos eventuais só se contém quando existe uma quase certeza de que, contra ela, existirá severa resistência por parte da vítima (o que nem sempre é aconselhável) e, principalmente, por parte do sistema estatal de segurança pública, em ações enérgicas, legais, rápidas e decisivas diante de uma ameaça ou efetiva lesão aos direitos (vida, patrimônio etc) de outrem. Depois, exemplar punição. É o caminho.

 

Os bandidos, tal como nós vítimas em potencial, já não acreditam que isso exista. O medo que deveriam ter eles estão transferindo para nós. Sem nenhum subterfúgio, a palavra é medo mesmo. Nesse tipo de coisas, ele vem antes do respeito, que é consequência. Temos visto isso todos os dias, e todos os dias a ousadia dos marginais vai ficando cada vez maior e mais difícil de ser controlada. Vão eles impondo as próprias leis que, de pouco tempo para cá, incluem as execuções sumárias, como aquelas ocorridas neste começo de fevereiro na vizinha e pacata São José da Lapa. Simplesmente mataram, num canteiro de obras e com muitos tiros de arma semiautomática, quatro rapazes que seriam viciados em crack.

 

Desta vez ninguém disse que era guerra de não conhecidas gangues, o que já se tornou banal. Foi coisa muito pior, que também vem ocorrendo com certa frequência - cobrança de dívida oriunda do vício. Uma espécie selvagem do serviço de proteção ao crédito do crime (SPC do C). Eles aprendem tudo. Aqui, onde os caloteiros pululam por todos os lados, o caminho legal é inscrevê-los no SPC oficial e, depois, acioná-los na Justiça. Agora veja! No jargão forense, essa última fase chama-se execução, que, na gíria popular, é o mesmo que "levar pro pau". Pegaram a coisa ao pé da letra e a fazem ao seu modo.

 

Esse crime, para alguns, não terá importância. As vítimas eram viciados e pobres. Mas o vício e as dívidas não são privilégios (?) dos menos afortunados. Se a moda pega - e não encontra severa repressão -, não saberemos contar os cadáveres crivados de balas pelas ruas. Urge que a polícia prenda logo os facínoras, seja quem for, sem medo de críticas.

 

Publicado em: 14/02/2009