O SEQÜESTRO E A POLÍCIA
Antônio Orfeu Braúna
01/11/2008 (Jornal O TEMPO)
Em matéria de segurança pública, não existe assunto mais em evidência e digno de reflexão que não seja o caso ocorrido, recentemente, na cidade de Santo André, região do ABC paulista, onde um tal Lindemberg Alves seqüestrou, manteve em cárcere privado (por cinco dias) e, finalmente, matou a tiros a ex-namorada, Eloá, e feriu Nayara, amiga. Ambas de apenas 15 anos de idade. A tudo isto somou-se a ação do grupamento da Polícia Militar paulista (GATE) que, de muitas formas, cometeu erros, que foram relevantes para o desfecho trágico.
O fato, no seu desenrolar e conseqüências, terminou tomando novo rumo. Já nem é a conduta do desequilibrado Lindemberg, que estaria motivada pela paixão. A discussão agora é a ação dos policiais paulistas no episódio e o fato de o pai da jovem assassinada, que nada tinha a ver com o seqüestro, ser um homem procurado pela polícia.
Erros aconteceram, sem dúvida. E o principal foi o excesso de medo da crítica, que inibiu todo e qualquer planejamento da ação que, por certo, existia. O negociador ficou à frente de tudo, quando, em verdade, deveria ser uma peça, importantíssima, da operação. Pouco conseguiu porque, afinal, ninguém faz bom negócio se não tem argumentos fortes "e bala na agulha". É este o termo e o princípio esquecido. O bandido ouviu todos os velhos argumentos. E aproveitou-se, pois não sentiu firmeza de ninguém para uma ação enérgica. Ao invés de se cansar, cansou a todos. E deu no que deu.
A polícia ali estava para reprimir o crime em andamento (seqüestro e cárcere privado) e impedir os que mais poderiam ocorrer, como ocorreram. Em tais situações, preservar vidas, inclusive a do criminoso (se possível), é a regra. Mas, a prioridade é daqueles que sofrem o constrangimento. Não daquele que o causa. Os policiais, por dever e preparo, tinham que agir - ou mostrar indubitável disposição de agir - a partir do primeiro momento. Esperaram cinco dias, quando deveriam ser apenas horas. A negociação fracassou na primeira noite. E o bandido cresceu. Assim, era liquidar o caso.
Essa decisão é que é dificílima e, mesmo que teoricamente muito estudada, inclusive com treinamentos, na prática a coisa é bem outra, principalmente porque não é todo dia que um fato daqueles acontece, nem é todo dia que se atira na cabeça de alguém, para se salvar vidas. Além do mais, o atirador só age depois de recebida a ordem.
Mas, o profissional de polícia sabe que, em casos assim, não tem a opção de empatar o jogo, digamos. É ganhar ou ganhar, de acordo com a lei, sem prorrogação ou pênaltis. Tem que usar todos os recursos para decidir no tempo regulamentar. Mas, o técnico ficou esperando um melhor momento. Assim, como no futebol, time todo jogou muito mal.
O adversário desacreditou da diretoria aos reservas. Na mídia, restou a imagem de um torcedor torcendo pela filha, Eloá. Nada a ver. Virou a atração principal.
Mesmo que mal possa ter sido a comparação, segurança pública é que nem futebol - "quem não faz, leva!". Assim, perdemos a partida.
Publicado em: 01/11/2008
